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Executiva
Por Marilaine Costa*
Se uma decisão crítica sobre um fornecedor precisasse ser tomada hoje, quanto tempo sua organização levaria para reunir evidências suficientes e confiáveis para tomá-la?
A pergunta parece simples. Na prática, talvez seja uma das mais importantes para organizações que operam cadeias extensas e complexas de fornecedores e terceiros.
Isso porque o desafio nem sempre está na capacidade dos profissionais de Compliance, Suprimentos, Riscos, Jurídico, Financeiro ou Operações de analisar uma situação. Muitas vezes, ele começa antes.
Onde estão os dados? Eles estão atualizados? Foram validados? Conversam entre si? Existe histórico? É possível reconstruir o que aconteceu com determinado fornecedor, contrato ou trabalhador meses ou anos atrás?
Quando essas respostas não estão disponíveis, uma parcela relevante do tempo qualificado das organizações deixa de ser dedicada à análise e à decisão e passa a ser consumida na busca, consolidação, validação e contextualização das informações necessárias para chegar até elas.
Em um ambiente marcado por mudanças regulatórias, riscos geopolíticos, novas exigências tributárias, cybersecurity, ESG, inteligência artificial e maior interdependência entre organizações, essa distância entre necessidade de informação e capacidade de decidir passa a ser também uma questão de resiliência.
Da gestão da informação ao Time to Decision
Propomos uma pergunta para a gestão de terceiros: qual é o Time to Decision da sua organização?
Neste contexto, Time to Decision (TTD) pode ser compreendido como o tempo necessário para transformar dados dispersos sobre terceiros em evidências confiáveis, contextualizadas e disponíveis para uma decisão segura.
Um documento isolado é um dado. Quando seu conteúdo é verificado segundo critérios e requisitos definidos, ele passa a compor uma evidência. Quando essa evidência está associada ao fornecedor, à pessoa, ao contrato, ao período, à obrigação e ao histórico correspondente, ela ganha contexto. Quando diferentes evidências são relacionadas e analisadas, produzem inteligência. E inteligência confiável, disponível no momento necessário, sustenta decisões melhores.
Organizações não sofrem apenas com falta de dados. Sofrem também com dados fragmentados, sistemas que não se comunicam, diferentes fontes de informação e dificuldade para reconstruir o histórico de uma relação com terceiros.
A qualidade do dado já afeta a confiança na decisão
A 2026 Global Third-Party Risk Management Survey, da KPMG, ouviu 851 organizações e evidencia a relação entre qualidade dos dados, integração e confiança decisória. Apenas 17% dos respondentes classificaram seus dados de TPRM no nível mais alto de qualidade. Entre organizações com dados de alta qualidade, 52% declararam estar “muito confiantes” em suas decisões de TPRM; entre aquelas com baixa qualidade de dados, 40% declararam não estar confiantes.
A pesquisa também mostra que apenas 18% das organizações possuem seus programas de TPRM totalmente integrados ao Enterprise Risk Management (ERM), enquanto 53% os consideram majoritariamente integrados.
A recomendação é clara: tratar dados como ativo estratégico, melhorar governança e integração e incorporar automação e inteligência artificial ao ciclo de TPRM de forma intencional. O problema, portanto, não é apenas tecnológico. É de arquitetura da informação e governança.
A complexidade do risco também aumentou
Ao mesmo tempo em que as organizações precisam decidir com mais qualidade e velocidade, aquilo que precisam observar em seus fornecedores tornou-se mais complexo.
O estudo acadêmico “From risk to resilience: a multi-layered framework for supplier risk assessment to strengthen supply chain resilience”, publicado em 2026 no International Journal of Physical Distribution & Logistics Management, desenvolve uma estrutura de avaliação de fornecedores que integra dimensões ambientais, financeiras, sociais e operacionais, fatores de risco, indicadores e fontes de informação.
O estudo parte de revisão estruturada da literatura e workshops com especialistas para tornar a avaliação de risco no nível do fornecedor mais operacionalizável. A lógica é relevante para nossa tese: quanto maior a complexidade do risco, maior a necessidade de transformar fontes fragmentadas em indicadores observáveis e utilizáveis para antecipar vulnerabilidades e apoiar decisões.
Conhecer um fornecedor já não significa apenas saber se ele pode entregar determinado produto ou serviço. Significa compreender continuamente diferentes dimensões de sua capacidade e exposição a riscos.
Terceirizar capacidade não significa terceirizar a decisão
O Crowe 2025 Third-Party Risk Management Financial Services Benchmark Study identificou que aproximadamente 38% das organizações pesquisadas terceirizam alguma atividade de TPRM. Entre aquelas que terceirizam, 56% utilizam recursos externos para assessments, 56% para third-party oversight e 33% para ongoing monitoring.
Segundo a Crowe, esse movimento reflete a busca por manter throughput de avaliações e cobertura de monitoramento sem aumento material do headcount interno. Entre as recomendações, o estudo propõe utilizar outsourcing e automação para aliviar estruturas enxutas, preservando a capacidade interna para decisões de maior risco e supervisão.
A KPMG identifica movimento convergente: mais de 80% das organizações pesquisadas utilizam managed services, outsourcing ou ambos em atividades centrais de TPRM, enquanto apenas 5% adotaram modelos end-to-end.
A leitura para a Executiva é importante: ampliar capacidade por meio de parceiros especializados não significa transferir governança. A organização pode preservar apetite a risco, supervisão e decisão, enquanto tecnologia e especialização externa absorvem escala, validação, processamento e monitoramento.
Tecnologia e inteligência humana não são escolhas opostas
O objetivo da automação não deveria ser simplesmente retirar o humano do processo. Deveria aumentar a quantidade de tempo humano disponível para aquilo em que julgamento, contexto e conhecimento especializado realmente fazem diferença.
Tecnologia e inteligência artificial podem ampliar capacidade de processamento, organizar grandes volumes de informação, identificar padrões e apoiar validações. Conhecimento especializado pode tratar criticidade, exceções, contexto e interpretação. E a organização permanece responsável pela governança, pelo apetite a risco e pela decisão.
O resultado não é apenas fazer o mesmo processo mais rapidamente. É criar condições para que profissionais qualificados utilizem menos tempo preparando a informação para análise e mais tempo analisando o que aquela informação significa para o negócio.
A jornada começa antes da contratação e não termina na homologação.
O conceito de Time to Decision permite olhar para a gestão de terceiros como uma jornada contínua.
Antes de contratar, é preciso compreender se determinado fornecedor possui condições financeiras, operacionais e de compliance compatíveis com a relação pretendida. Na homologação, requisitos precisam ser comprovados e validados. Na mobilização, pessoas, documentos e condições precisam estar adequados para que uma operação possa começar com segurança. Durante a execução do contrato, mudanças precisam ser monitoradas e desvios identificados. Em auditorias, renovações, disputas ou eventos de risco, o histórico precisa estar disponível.
Em cada etapa existe uma decisão: qualificar, contratar, liberar, mobilizar, manter, corrigir, restringir, renovar, suspender ou substituir.
Por isso, uma estrutura de gestão de terceiros não deveria funcionar apenas como repositório documental. Imagine uma demanda trabalhista anos depois da execução de um contrato. A pergunta não será apenas se existe um documento arquivado. Será necessário reconstruir quem era aquela pessoa, para qual empresa trabalhava, em qual período e operação, quais obrigações eram aplicáveis, se as evidências foram verificadas, se houve irregularidades e se foram regularizadas.
Essa capacidade representa mais do que armazenamento. Representa uma memória de conformidade da cadeia de terceiros.
Da conformidade à resiliência
A gestão de terceiros está deixando de ser apenas uma disciplina destinada a verificar requisitos para se tornar infraestrutura relevante para a resiliência das organizações.
Resiliência depende da capacidade de perceber sinais, compreender sua relevância e responder antes que uma vulnerabilidade se transforme em impacto. Nesse contexto, velocidade não significa decidir apressadamente. Significa reduzir o tempo entre a existência de um risco e a disponibilidade de inteligência suficiente para agir sobre ele.
Certificação financeira, homologação de fornecedores, gestão documental, mobilização, auditoria, monitoramento, tecnologia, inteligência artificial e conhecimento especializado deixam de ser processos isolados e passam a compor uma mesma infraestrutura de inteligência sobre terceiros.
Então, qual é o seu Time to Decision?
Talvez uma das perguntas mais relevantes para líderes de Supply Chain, Procurement, Compliance, Riscos, Jurídico, Financeiro e Operações não seja apenas quantos fornecedores sua organização possui ou quantos documentos consegue processar.
Se uma decisão relevante sobre um fornecedor precisasse ser tomada agora, quanto tempo levaria para sua organização reunir evidências confiáveis para sustentá-la?
E quanto desse tempo seria dedicado à análise e quanto seria gasto procurando, consolidando e validando informações?
Em cadeias cada vez mais complexas, a vantagem não estará simplesmente em possuir mais dados. Estará em conseguir transformá-los em evidência, contexto e inteligência no tempo necessário para decidir.
O objetivo da tecnologia aplicada à gestão de terceiros não é retirar o humano da decisão. É devolver ao especialista o tempo necessário para tomar decisões melhores.
Converse com um consultor especializado e dê o primeiro passo para tornar sua gestão de fornecedores mais inteligente, segura e eficiente: (11) 93414-7700
*Marilaine Costa é CEO da Executiva Inteligência em Terceiros.