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Executiva
Por Cleo Nascimento e Thiago Quadra*
Durante décadas, a gestão de Segurança e Saúde do Trabalho concentrou seus esforços nos riscos visíveis. Máquinas sem proteção, trabalho em altura, agentes químicos, ruído, ergonomia física. Riscos claros, mensuráveis e, muitas vezes, imediatos.
Mas existe uma outra categoria de risco que não aparece com a mesma evidência e, justamente por isso, tem sido negligenciada. São os riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Eles não fazem barulho, não geram acidentes instantâneos. Não aparecem facilmente nos checklists, mas estão presentes todos os dias nas rotinas de trabalho, silenciosamente, adoecendo pessoas e comprometendo resultados.
Vejamos, a seguir, dois autores que são referências acerca deste tema:
“O risco de adoecimento psicológico e físico decorre de situações de trabalho em que as demandas psicológicas são elevadas e o controle do trabalhador sobre o processo de trabalho é baixo.” — KARASEK, R.; THEORELL, T. (1990). Healthy Work: Stress, Productivity, and the Reconstruction of Working Life.
“Os riscos psicossociais não são uma propriedade do indivíduo, mas sim o resultado do encontro entre uma organização do trabalho rígida e a economia psíquica do trabalhador, que busca nela um sentido para sua atividade.” — DEJOURS, C. (2011). Adictamento e Trabalho.
Dejours é o pai da Psicodinâmica do Trabalho, deslocando o olhar do indivíduo para a estrutura montada pela empresa, ou seja, o risco nasce quando as regras da empresa (metas, horários, cobranças) ignoram as necessidades humanas de reconhecimento e realização, transformando o trabalho em um peso puramente mecânico ou burocrático.
O mundo do trabalho mudou, e rapidamente. A combinação de hiperconectividade, pressão por resultados e novos modelos de gestão elevou significativamente as exigências cognitivas sobre os profissionais. E essa transformação não passou despercebida pela legislação. A atualização da NR-01 trouxe um recado claro para as empresas: a gestão de riscos agora precisa incluir, obrigatoriamente, os fatores psicossociais. Não é mais tendência. Não é mais diferencial. É obrigação.
Leia também: Mudanças na NR-1: o que sua empresa precisa saber para garantir conformidade em 2026
O Brasil vive uma escalada sem precedentes nos adoecimentos mentais relacionados ao trabalho. Os números do Ministério da Previdência Social e levantamentos recentes indicam que o problema se tornou estrutural:
A Saúde Mental no trabalho não se trata de uma preocupação local, mas sim global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) tratam a saúde mental no trabalho como uma emergência global de saúde pública e econômica, conforme podemos verificar no quadro a seguir:
Existe ainda uma confusão crítica no mercado, sendo comum ouvir:
Nada disso resolve na raiz. Como alerta a psicóloga Christina Maslach, pioneira mundial no estudo da Síndrome de Burnout: “O burnout não é um problema do indivíduo, mas sim do ambiente social no qual ele trabalha. É um sinal de que a organização do trabalho está adoecida, e não a pessoa.”
O risco psicossocial não está na pessoa. Está no trabalho. Ele nasce de falhas sistêmicas, tais como:
Pesquisas no campo da psicologia organizacional e da medicina do trabalho apontam que a ansiedade e a depressão não surgem do nada. Elas são diretamente engatilhadas por falhas na organização do trabalho (o chamado Risco Psicossocial, agora cobrado pela NR-01). Os principais gatilhos comprovados são:
A partir de agora, as empresas precisam:
✔ Identificar riscos psicossociais
✔ Avaliar tecnicamente esses riscos
✔ Incluir no PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos)
✔ Criar planos de ação estruturados
E, mais importante: tudo isso com metodologia válida e documentada (sem improvisos).
O coração da NR-01 é o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos), que se divide em dois documentos principais:
Sendo assim, estruturamos um guia para sanar as principais dúvidas e ajudar você a montar um plano robusto, focado na prática e na conformidade, considerando que a gestão eficaz passa por quatro etapas claras:

Como defende o psiquiatra Christophe Dejours(2011), criador da Psicodinâmica do Trabalho: a saúde mental no ambiente corporativo não se promove “consertando” o indivíduo, mas sim intervindo na organização do trabalho que gera o sofrimento.
Aqui está onde o risco escala — e muitas empresas ainda não perceberam. A NR-01 deixa claro: a responsabilidade não termina no vínculo empregatício. Se você, como contratante, define para o terceiro:
Você influencia diretamente o risco psicossocial desse profissional. E isso gera:
O Erro Clássico das Contratantes:
“Tenho o PGR do fornecedor arquivado, estou protegido.” Não está. Em um eventual litígio, será exigido da sua empresa:
✔Evidência de avaliação dos riscos sob sua influência
✔Ações concretas de controle e mitigação
✔Coerência entre a exigência imposta e a capacidade real de execução
Não basta controlar o fornecedor. É preciso controlar o modelo de trabalho imposto a ele.
As organizações mais avançadas já entenderam que:
✔ Gestão de terceiros = gestão de risco
✔ Risco psicossocial = risco operacional
✔ Cultura + processo + governança = prevenção real
Essas empresas já estão evoluindo para a integração total entre SST, Operações e Suprimentos, criando indicadores próprios, revisando contratos e mantendo um monitoramento contínuo.
E na sua empresa: o risco psicossocial já está sendo tratado como prioridade de negócio ou ainda está sendo confundido com “clima organizacional”?
Sendo assim, a NR-01 não inaugura apenas uma nova obrigação legal, ela inaugura uma nova forma de pensar o trabalho. Empresas que insistirem em tratar riscos psicossociais como um tema secundário ou meramente comportamental estarão, na prática, assumindo riscos operacionais, jurídicos e financeiros cada vez mais relevantes.
Por outro lado, organizações que compreenderem essa mudança como uma oportunidade sairão na frente: redesenharão seus modelos de gestão, fortalecerão sua cultura, aumentarão a produtividade sustentável e reduzirão significativamente seus passivos.
E aqui existe um ponto decisivo: na gestão de terceiros, esse risco se amplia. Não basta garantir conformidade documental é necessário garantir coerência entre o que é exigido e o que é possível ser executado. O modelo de trabalho que você impõe ao fornecedor também é sua responsabilidade.
A pergunta que fica não é mais se sua empresa vai lidar com os riscos psicossociais, mas como e com qual nível de maturidade, inclusive na sua cadeia de terceiros.
Porque, no final, não se trata apenas de cumprir uma norma. Trata-se de construir ambientes de trabalho que gerem resultado sem adoecer as pessoas, dentro e fora do seu quadro direto, e isso, hoje, é um dos maiores diferenciais competitivos de qualquer negócio.
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Em breve, também promoveremos uma mesa-redonda exclusiva sobre este tema. Caso você tenha interesse em participar, envie um e-mail para o mesmo endereço.
*Cleo Nascimento é Gerente Comercial e Psicóloga, e Thiago Quadra é Diretor de Operações da Executiva – Inteligência em Terceiros.